quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Perdida - Cap 1


   A que ótimo já são 8h20 e eu estou mais que atrasada naquela porcaria de trabalho e ainda por cima suja de esgoto que um motoqueiro jogou em mim, ai que ódio.

-Além de chegar atrasada, você ainda aparece aqui usando essa roupa
imunda? Você devia se vestir um pouco melhor, Lua. Com o salário que eu te pago..

   Nossa que grande salario.

-Eu sei, Seu Carlos — comecei. — Mas acontece que um motoqueiro idiota
passou...

-Ah! Chega de desculpas. Já estou farto delas. Acha mesmo que eu acredito
em suas histórias? Não entendo por que ainda não te demiti! - ele arqueou uma
sobrancelha desafiadoramente.

-Desculpa, eu prometo que compenso meu atraso.

-Ótimo ! Quero tudo até as 5h.

   Já mencionei que eu odeio o Carlos ? Pois é eu trabalho nesse maldito escritório a mais de anos desde que meus pais morreram, eu tive que me virar sozinha então fiz a faculdade de administração e no meu primeiro estagio foi onde permaneci até hoje, aguentando esse mala do Carlos.

   Fui até a minha mesa e liguei o meu computador. Ele fez um barulho estranho e apagou. Apertei o botão de ligar de novo.

-Liga, liga, liga. - Porém nada. -Droga!

-É Lua, se ficar ai parada não vai conseguir me entregar esse papeis.

-Acontece que meu computador pifou. Como vou entregar todos esse contratos ?

-Como fazíamos antes de inventarem essas máquinas complicadas que sempre
deixam a gente na mão.

   Olhei pra ele sem compreender. Do que diabos aquele homem estava falando?
Carlos notou minha expressão e acrescentou

-É claro que você sabe que os computadores nem sempre estiveram aqui, não
é? -ele disse lentamente, como se eu fosse uma débil mental.

-Claro que eu sei!

   Eu preciso deste emprego! Não adianta nada pular no pescoço dele e
estrangulá-lo!

-Então, mãos à obra, Lua. Você tem até as cinco. A máquina de datilografia
está no armário do almoxarifado. Ela não trava, não dá pau, o cartucho não acaba...
Você vai gostar! É muito eficiente. Dá até saudades do tempo em que o escritório era
preenchido pelo barulho dos botões. - um sorriso cínico apareceu em seus lábios. Um
sorriso que dizia você não vai conseguir!

   Vamos ver, careca! - e fui buscar a tal máquina. Era pesada e desajeitada para
carregar. Coloquei-a sobre minha mesa e observei.

   Hummm... Eu já tinha ouvido falar sobre ela.

   Mas cadê o botão pra ligar?

   Experimentei uma tecla qualquer.

  Tec. Tec, tec, tec, tec, tec, plim!

  Plim? Será que eu quebrei esse troço? Ai, meu Deus! Só me faltava essa!
Joana, que ria alto, provavelmente da minha cara de pânico, saiu de sua mesa -
duas atrás da minha - e veio ao meu socorro. Ela era a funcionária mais antiga da
empresa, certamente chegou a trabalhar com a coisa pré-histórica.

- Lua, pare de olhar para a máquina com essa cara! - ela disse, empurrando
os óculos pretos com o dedo indicador. - Isso não é um objeto alienígena.

-Não. - concordei. -Se fosse, eu provavelmente saberia como usar, O
problema é que... - eu estava mesmo com medo daquela máquina barulhenta cheia de
tecs e plins, mas precisava terminar meu trabalho. Bem... Eu já vi uma dessas uma vez
no museu da tecnologia, mas...

- Você não sabe usá-la. - ela concluiu, ainda rindo.

   Não existia programa algum de computador que eu não soubesse utilizar, sempre aprendia
rapidamente assim que um novo aparecia. Mas aquela máquina...

- Eu nem sei ligar essa coisa! - sussurrei. Algumas pessoas nos observavam.

   Joana explodiu outra gargalha e quase todos no escritório voltaram sua atenção
para onde eu estava.

- É bem simples, Lua. Você coloca o papel aqui - pegou um papel em
branco, enfiou numa fenda e depois girou um botão enorme na lateral da coisa. Rec, rec,
rec, rec. - Depois prende com isso - ela ergueu um pequena e fina haste metálica,
encaixou a folha e depois soltou a haste, prendendo o papel. - E pronto!

- Ah! Parece fácil!

   Joana não pareceu acreditar muito na minha convicção. Voltou para sua mesa. Concentrei-me na máquina.

   Experimentei digitar com certa cautela, e percebi que nada saia no papel.

- Precisa apertar com mais força. - Joana gritou, ainda me observando. -
Tem que fazer tec.

   Tentei outra vez Ah! Deu certo. As letras apareceram no papel. Digitei - datilografei - algumas linhas, meio desajeitada, e parei. Observei o teclado atentamente. Não. Não estava lá.

- Joana, onde fica o delete?

   Ela ergueu as sobrancelhas e abriu ligeiramente a boca.

- Como? - perguntou como se eu estivesse falando em japonês.

- Não tem delete! Eu errei um número e não tô encontrando a tecla delete em
lugar algum!

   O escritório todo explodiu em uma gargalhada estrondosa, me deixando com
vontade de me enterrar debaixo da papelada que estava à minha frente.

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